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<T+1>

<hist. 8 s. cap. 15>

<226>

Captulo 15



De Juscelino ao golpe de 64



  Juscelino assumiu a presidncia dois aps a morte de 

Vargas. O pas viveu uma poca de crescimento econmico, com 

a instalao das fbricas de automveis e a construo de 

Braslia. Mas a inflao subiu demais e os salrios caram.

  Com o apoio da UDN, Jnio Quadros foi eleito em uma grande 

votao. Porm, depois de sete meses de governo confuso, ele 

renunciou ao mandato. Os militares mais conservadores 

quiseram impedir a posse do vice, Joo Goulart (_Jango). A 

crise foi superada e ele assumiu. Essa foi uma poca 

efervescente, em que sindicatos, intelectuais e estudantes se 

mobilizavam pelas _Reformas _de _Base. Essas reformas foram 

impedidas com o golpe militar de maro de 1964.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Juscelino na fbri-  o

  ca da Wolkswagen: novas       o

  indstrias, novas lutas dos    o

  operrios.                     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<227>

O pas inteligente



  Entre o final dos anos 50 e o comeo dos 60, o Brasil viveu 

uma base emocionante de mudanas e de esperanas de 

renovao. Parecia que o pas inteiro estava disposto a _se 

_conscientizar (um verbo que comeou a ser usado naquela 

poca). Nas escolas, nas fbricas, nas ruas e nas mesas, as 

pessoas debatiam apaixonadamente. Como superar o 

subdesenvolvimento? A reforma agrria seria necessria? 

Quando a cultura brasileira deixaria de ser elitista e 

subordinada aos valores estrangeiros? A Revoluo Cubana 

servia de exemplo para ns? Qual era o papel dos intelectuais 

e dos estudantes na luta pelas transformaes sociais?

  Ser que hoje em dia as pessoas tm o mesmo entusiasmo em 

participar das lutas polticas e sociais? O que mudou no 

Brasil de hoje? Ser que as questes que apresentamos acima 

tm algo a dizer para as novas geraes?

  Toda aquela euforia pelas perspectivas de mudanas foi 

encerrada quando os militares deram o golpe de 1964, 

derrubando o presidente Joo Goulart. Essa nova situao 

produziu uma outra pergunta: um regime ditatorial poderia 

contribuir para solucionar ou para agravar os problemas do 

Brasil?



<P>

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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Capa do livro _Obras     o

  _Escolhidas de Marx E Engels.   o

  Na dcada de 60, esta foi uma     o

  leitura obrigatria para os         o

  universitrios e os inte-           o

  lectuais que queriam {estar         o

  por dentro}. Mas e quando os       o

  operrios comearam a l-la?        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



Juscelino e o nacional-desenvolvimeto



  O presidente _Juscelino _Kubitschek (JK) tornou-se um dos 

nomes mais famosos de nossa histria. To famoso que voc j 

deve ter ouvido falar alguma coisa sobre o governo dele: o 

crescimento econmico, que entusiasmava os brasileiros, as 

primeiras fbricas de automveis do pas, a construo da 

nova capital (Braslia).

<P>

  A idia de JK era desenvolver o Brasil. Seu raciocnio era 

bem simples: {O Brasil  um pas subdesenvolvido. A economia 

de um pas subdesenvolvido baseia-se na agroexportao. Nos 

pases desenvolvidos, o setor mais importante da economia  a 

indstria. Ento, o que tem de ser feito para o Brasil se 

tornar desenvolvido? Industrializa-lo!} Sacou a idia? Para 

ele, o governo tinha de agir de modo que o Brasil deixasse de 

ser um exportador de produtos primrios (caf, algodo, 

minrio de ferro) e se convertesse numa economia 

industrializada. Essa idia econmica bsica de JK era 

chamada de _nacional-desenvolvimentista ou simplesmente de 

_desenvolvimentista. Ela era muito popular entre economistas 

e socilogos dos EUA, Europa, Ocidental e Amrica Latina nos 

anos 50.

<P>

  JK chamou seu projeto de governo de _Plano _de _Metas. O 

principal objetivo era ampliar significativamente a produo 

industrial brasileira. Em apenas cinco anos de governo JK, o 

Brasil deveria deixar de ser um pas basicamente 

agroexportador e se tornar industrial. Havia at um _slogan 

desenvolvimentista: {Crescer 50 anos em cinco}.

  Mas como alcanar esses objetivos? O que fazer para que o 

Brasil se industrializasse to rpido? O Plano de Metas tinha 

tudo previsto. A indstria de base, a construo de estradas, 

de hidreltricas e a extrao de petrleo cresceriam, e 

graas ao investimento do Estado. Os industriais brasileiros 

continuariam investindo nos setores tradicionais: tecidos, 

mveis, alimentos, roupas, construo civil (casas e 

prdios). E a aparecia a grande novidade: {JK deu todas as 

facilidades para o capital estrangeiro}. Isso mesmo. No 

governo de JK, dezenas de multinacionais abriram filiais no 

Brasil, principalmente para produzir bens de consumo.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: montagem de Fuscas.   o

  JK incentivou a instalao    o

  das multinacionais no Brasil   o

  porque achava que elas con-     o

  tribuam para a nossa indus-    o

  trializao.                    o

eieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<228>

  Automvel, rdio, geladeira, televiso, mquina de lavar 

roupa, mquina de costura, batedeira de bolo eltrica, 

toca-discos, enceradeira, ventilador, todos esses produtos 

encheram as lojas brasileiras. Artigos produzidos por 

empresas estrangeiras que abriam fbricas no Brasil, as 

famosas _multinacionais.

  A classe mdia atravessava a porta que levava ao 

maravilhoso mundo do consumo de eletrodomsticos. Para os 

pobres, entretanto, uma simples televiso ainda era cara 

demais para ser comprada.

  O Plano de Metas foi bem-sucedido? Alguns setores da 

economia cresceram e se modernizaram. Em especial a indstria 

de bens de consumo durveis (automveis e eletrodomsticos), 

que estava nas mos das multinacionais. Esse crescimento 

recebeu todo o apoio do Estado. Um apoio que era caro. O 

governo investiu pesado na Petrobrs e nas empresas 

siderrgicas estatais. Construiu _Braslia, a nova capital do 

Brasil, e muitas estradas.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto de Juscelino posando    o

  em frente ao seu busto na        o

  recm inaugurada Braslia. O   o

  projeto desenvolvimentista de    o

  Juscelino Kubitschek visava    o

  aumentar o desenvolvimento       o

  industrial do Brasil. Para     o

  isso, o governo estimulou a      o

  instalao de grandes            o

  empresas estrangeiras            o

  (multinacionais).                o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  E como foi que Juscelino arranjou dinheiro para bancar 

todas essas obras e empresas estatais e para financiar 

empreendimentos industriais particulares? De duas maneiras. 

Uma delas foi pegando emprestado com banqueiros estrangeiros. 

A _dvida _externa brasileira dobrou de tamanho. Outra foi 

mandando emitir papel-moeda (fabricando notas de dinheiro). 

J falamos disso lembra? O pequeno {probleminha} disso tudo 

era que, ao emitir dinheiro, o governo estava desvalorizando 

a moeda, provocando a inflao. Este  o nome do fantasma 

horroroso (e real!) que comeou a apavorar os brasileiros no 

fim do governo de JK: a _inflao.

  A economia cresceu, mas os trabalhadores passaram a receber 

menos. No final do governo JK, o valor do salrio mnimo 

representava s trs quartos do valor que tinha no comeo. E 

quem encolheu os salrios? A inflao, ora. Porque os preos 

subiam todas as semanas, mas os salrios passavam meses e 

meses congelados.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Braslia. JK prometia   o

  o Brasil do futuro: industria-     o

  lizado e desenvolvido. O sm-      o

  bolo da excitao desevolvi-        o

  mentista da poca foi a cons-       o

  truo da nova capital, Bras-     o

  lia. Seu projeto era supermo-      o

  derno, elaborado pelos arqui-       o

  tetos Oscar Niemeyer e Lcio     o

  Costa.                             o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<229>

O que o subdesenvolvimento?



  O governo de JK baseou-se na teoria desenvolvimentista. Mas 

essa teoria foi duramente criticada por economistas e 

socilogos de esquerda. Para comear, ela se baseava numa 

idia muito simples: {Pas subdesenvolvido = agroexportador. 

Pas desenvolvido = industrializado}. Mas quem foi que disse 

que essa equao era verdadeira? Quando terminou seu mandato 

(perodo de governo), JK podia comemorar uma vitria: o valor 

do que era produzido por toda a indstria nacional j 

superava o valor das coisas produzidas pela agricultura e 

pela pecuria brasileira. Em outras palavras, o Brasil havia 

se tornado mais industrial do que agroexportador. No entanto, 

ns continuvamos to subdesenvolvidos como antes.

  O fato  que um pas industrial nem sempre  desenvolvido. 

Depois de JK, o setor mais destacado da economia brasileira 

passou a ser a indstria. Mesmo assim, continuamos 

subdesenvolvidos. Sabe por qu? Ns j estudamos as 

caractersticas de um pas de Terceiro Mundo. Agora, pense um 

pouco: JK mexeu no Brasil a ponto de mudar essas 

caractersticas?

  Apesar do crescimento industrial, o pas continuava sendo 

um exportador de produtos primrios: caf, algodo, minrio 

de ferro, cacau, acar. Bem tpico do Terceiro Mundo, no? A 

agricultura ainda era dominada pelo latifndio, pelo atraso 

tecnolgico, pela misria do campons. JK nem ensaiou uma 

reforma agrria. As diferenas sociais tambm no foram 

diminudas. JK pouco fez para melhorar a distribuio de 

renda. Permitiu que a inflao devorasse os salrios dos 

trabalhadores. Ora, se a economia tinha crescido e os 

salrios havia  diminudo, quem ficou com a riqueza gerada 

naqueles anos? Os mais ricos,  bvio.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Propaganda sabonete Lever     o

  no comeo dos anos 50. O        o

  produto era fabricado pela        o

  filial brasileira de uma          o

  empresa norte-americana. O       o

  governo de JK estimulou a       o

  vinda das multinacionais ao       o

  Brasil. Com isso, reforou o    o

  gosto brasileiro pelos pro-       o

  dutos dos EUA. O crescimento   o

  da indstria de automveis e      o

  eletrodomsticos fez a classe     o

  mdia entrar na sociedade de      o

  consumo. Mas a grande maioria    o

  da populao no podia com-       o

  prar esses produtos.              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



  Durante o governo de JK, houve um grande crescimento da 

indstria de bens de consumo durveis: televiso, automveis, 

rdios, geladeiras, mquinas de lavar roupa, enceradeiras, 

etc. Naquela poca, s a classe mdia podia comprar esses 

produtos. Ou seja, o crescimento econmico do pas pouco 

beneficiou os mais pobres.

  D para entender por que a economia brasileira se 

modernizou enquanto o povo permanecia miservel, no  mesmo? 

No final do governo de Juscelino, o pas j no crescia 

tanto. Mas a inflao e a dvida externa aumentavam sem 

parar. A insegurana tomava conta dos brasileiros.

  Nesse clima de insegurana nacional, surgiu um cometa na 

poltica: _Jnio _Quadros.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Porta-avies _Minas    o

  _Gerais. JK era muito habili-  o

  doso politicamente. Apoiado      o

  pelo PSD e pelo PTB, soube    o

  dialogar com a UDN. Agradou    o

  aos militares, nomeando-os        o

  para cargos de empresas esta-     o

  tais, aumentando seus soldos      o

  (salrios) e modernizando seus    o

  equipamentos. O porta-avies     o

  _Minas _Gerais foi comprado     o

  para a marinha.                   o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<230>

O desenvolvimentismo na MPB: a Bossa Nova



  No tempo de JK, o Brasil inteiro estava de olho no que era 

moderno: indstria, automvel, eletrodomsticos, Braslia. 

Esse gosto pela novidade tambm atingiu a msica popular 

brasileira (MPB). Foi uma na Zona Sul do Rio de Janeiro 

(Copacabana, Ipanema, Leblon) que um grupo de rapazes e moas 

resolveu juntar o samba com as sutilezas do jazz americano. 

Tom Jobim, Vincius de Moraes e o baiano Joo Gilberto 

criaram um novo jeito de fazer msica brasileira: a _bossa 

_nova.

  Em vez do cantor de terno, bigodinho, jeito de amante 

latino e berros melosos, como tinha sido nos anos 40 e 50, na 

bossa nova cantava-se baixinho, como o acompanhamento apenas 

de um violo. Nas letras, a vida cotidiana: a garota de 

Ipanema, que era coisa mais linda que passava, o barquinho no 

azul do mar, etc.

  A bossa nova mudou a histria da MPB. Durante quase meio 

sculo influenciaria os msicos brasileiros. E ficou 

conhecida at mesmo no exterior.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Joo Gilberto na pose   o

  clssica da bossa nova. Jusce-    o

  lino recebeu o apelido de          o

  {Presidente bossa-nova}. Uma     o

  poca em que tudo deveria se       o

  desenvolver: de economia           o

  ({50 anos em 5})  msica        o

  ({bossa-nova}).                    o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



Oh, yeah: ns temos o _rock-n'-roll!



  Foi na dcada de 50 que a cultura do mundo Ocidental 

(Europa e Amricas) passou a ser fortemente influenciada 

pelos costumes norte-americanos. O cinema de Hollywood 

divulgava o modo de vida americano: a msica, as roupas, a 

comida, os gostos. E todos os jovens do Ocidente queriam 

imitar os heris americanos das telas.

<P>

  No Brasil dos anos 50, o pessoal aprendeu a vestir cala 

jeans, a comer hambrguer e _hot-dog, a tomar _milk-shake e 

coca-cola, a namorar na lambreta, a ouvir o _rock-n'roll de 

Elvis Presley e Chuck Berry. No cinema os _rebeldes _sem 

_causa, representados por Marlon Brando e James Dean: 

camiseta branca e _jeans, cerveja, brigas de gangues de 

motoqueiros, beijos nas louras.



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*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto do ator de cinema        o

  James Dean que morreu quando   o

  seu Porsche bateu a 200 km/h.  o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: um casal danando   o

  alegremente o som americano    o

  universal dos anos 50.        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<231>

<P>

Jnio Quadros



  Nas eleies presidenciais de 1960, Jnio Quadros teve uma 

vitria espetacular. E por que Jnio conseguiu tantos votos? 

Porque sua campanha atraiu todas as classes sociais. 

Politicamente conservador, ele agradava  classe alta e  

classe mdia. No foi  toa que recebeu apoio da UDN e de 

Carlos Lacerda. Vivia falando em {varrer a corrupo do 

pas}. Da o famoso smbolo de sua campanha: a vassoura. Nos 

discursos, Jnio se apresentava como uma figura estranha, 

mistura de santo, louco e empreendedor. Chegava a comer 

sanduche de mortadela no meio de um comcio s para 

impressionar as pessoas com sua {simplicidade}. Embora 

tivesse se aliado  UDN, no pertencia a nenhum grande 

partido: sabia se aproveitar do gosto -- que o povo 

brasileiro s vezes manifesta -- pelo poltico que parece que 

no  poltico, que d a impresso de que {no est ligado a 


nenhum esquema}.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Figura: Vassoura com a ca-  o

  bea de Jnio Quadros. A     o

  vassoura era o smbolo de       o

  Jnio Quadros. Ele tambm    o

  dizia ser {o tosto contra o    o

  milho}. Nada profundo, no    o

   mesmo?                        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Jnio Quadros e Che   o

  Guevara. Poltico de direita,   o

  Jnio Quadros surpreendeu o     o

  mundo ao condecorar o guer-       o

  rilheiro Che Guevara, heri     o

  da Revoluo Cubana. O gesto   o

  irritou a UDN e os EUA.       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<P>

  Muitas pessoas votaram em Jnio acreditando que ele mudaria 

profundamente o Brasil. Mas no foi nada disso que aconteceu. 

O presidente revelou-se um governador de direita. Para 

comear, em nome da {boa administrao}, cortou os gastos do 

governo o com hospitais e escolas pblicas. Meteu a tesoura 

no dinheiro que o Estado gastava para manter o petrleo e o 

trigo baratos. O resultado foi o aumento do preo do po, do 

combustvel, dos transportes.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Moa de biquni em     o

  uma capa de revista de 1964.    o

  Para Jnio Quadros, o biqu-  o

  ni era uma ameaa  segurana    o

  nacional. Loucura dele, ou      o

  apenas um jeito de levar o       o

  povo a no prestar ateno       o

  nos problemas importantes        o

  do pas?                         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  A esquerda sempre rejeitou Jnio. O problema  que ele foi 

inbil, irritando tambm o partidos de direita que o 

sustentavam. Por exemplo, quando resolveu adotar uma 

{poltica externa independente} para o Brasil. Voc deve se 

lembrar de que, naquela poca (1961), os ideais dos pases 

_no-alinhados estavam na moda. Lembra da Conferncia de 

Bandung? Jnio propunha se apresentar como um grande lder do 

Terceiro Mundo, que no se submetia a nenhum bloco de poder. 

Por isso, reatou relaes diplomticas com a URSS e a China 

socialista.

   claro que o Brasil estava se alinhando com o bloco 

socialista, apenas querendo mostrar independncia na poltica 

internacional. Mas ser que o Brasil tinha fora suficiente 

para marcar essa posio autnoma? A situao se complicou 

quando Jnio surpreendeu o mundo condecorando, com uma 

medalha, nada mais, nada menos do que Che Guevara, o 

guerrilheiro argentino, heri da Revoluo Cubana. O governo 

dos EUA, j irritado com Cuba, certamente no aprovou a 

atitude de Jnio. E a UDN, sempre fiel aos ideais 

norte-americanos, criticou o presidente brasileiro.

<232>

  Como se tudo isso no bastasse, Jnio tomou decises 

aparentemente inexplicveis. Dava at para desconfiar da 

sanidade mental dele. Quer saber? Com tanto problema srio 

para resolver, o presidente da Repblica achava 

importantssimo perder tempo proibindo briga de galos, 

corrida de cavalos no meio da semana, alm do uso biqunis.

  A UDN no agentou e rompeu com Jnio. Lacerda deu uma 

entrevista na televiso acusando-o de estar armando um golpe 

de Estado para se tornar ditador.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Jnio Quadros. Jnio   o

  queria {mudar o Brasil}. Para    o

  muitos, no passou de um tra-      o

  palho politicamente de di-        o

  reita. Ele parecia misturar       o

  aes {excntricas}, manobras      o

  polticas e objetivos obscu-       o

  ros. Apresentava-se como um       o

  {messias salvador do povo}.        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



O vice que era da oposio: Jango



  A Constituio de 1946 estabelecia que as pessoas deveriam 

votar separadamente para presidente e para vicepresidente, 

sem se importar se eles fossem de partidos diferentes ou no.

  Nas eleies de 1960, a chapa apoiada pela UDN tinha como 

candidatos Jnio Quadros e Milton Campos. Do outro lado, o 

PTB e o PSD apoiavam o Marechal Lott para presidente e Joo 

Goulart para vice. Sabe como os brasileiros votaram? Em Jnio 

e em Joo Goulart! A cabea de uma chapa, os ps da outra. 

Situao estranha: o presidente, apoiado pela UDN, e o vice, 

que era do PTB. (UDN e PTB no se topavam, lembra?)

  Jango tinha sido o ministro do Trabalho de Getlio que 

props aumentar o salrio mnimo. Ns j vimos isso: as 

presses foram tantas que ele acabou demitido. Grandes 

empresrios, polticos conservadores e militares jamais 

perdoariam Jango. Quando ele se tornou presidente, 

substituindo Jnio, foi atacado sem trguas at ser 

derrubado, em 1964.



<P>

<F->

!::::::::::::::::::::::::::::::::::::.

l    Cdula Eleitoral              _

l                                    _

l    Para presidente:               _

l    !:::.                           _

l    l   _ Jnio Quadros           _

l    h:::j                           _

l    !:::.                           _

l    l   _ Marechal Henrique Lott _

l    h:::j                           _

l                                    _

l    Para vice-presidente:          _

l    !:::.                           _

l    l   _ Milton Campos           _

l    h:::j                           _

l    !:::.                           _

l    l   _ Joo Goulart            _

l    h:::j                           _

h::::::::::::::::::::::::::::::::::::j

<F+>



<P>

A renncia de Jnio



  De repente, pegando todo mundo de surpresa, Jnio Quadros 

renunciou  presidncia. Com apenas sete meses de governo, 

ele largava a presidncia do Brasil! Do mesmo modo como se 

jogasse fora um simples sanduche de mortadela. Acontece que 

o Brasil no era um sanduche de mortadela.

  Qual ter sido o motivo para esse gesto inesperado? Loucura 

pura, como acreditaram alguns? Diversos analistas dizem que 

Jnio estava mesmo tramando um golpe. O esquema era simples. 

O vice-presidente era Joo Goulart (de apelido _Jango). Voc 

se recorda dele? (Veja o texto anterior {O vice que era da 

oposio: Jango}.) Pois . Se Jnio deixasse de ser 

presidente, o novo chefe de governo seria o vice, Joo 

Goulart. Assim determinava a Constituio.

<P>

  Jnio tinha calculado chantagear os militares com a 

possibilidade de Joo Goulart se tornar presidente.  como se 

anunciasse assim: {Militares, vocs querem que eu renuncie e 

Jango se torne presidente? No?! Ento s tem um jeito de 

vocs evitarem Jango: me dem fora para fechar o Congresso e 

me tornar ditador do Brasil}.

  Mas a tentativa de golpe janista foi mal planejada. Pegou 

todo mundo de surpresa. Ele esperava que as multides fossem 

para as ruas gritar: {No renuncie, Jnio!} mas nada disso 

aconteceu. Ele renunciou, e nada ocorreu. Quando viu que 

tinha fracassado arrumou as malas e foi morar em Londres. No 

Brasil, a crise poltica estava instaurada.



<233>

<P>

A crise da posse de Jango



  No momento da renncia, Jango estava viajando pela China. E 

realmente aconteceu o que se esperava: vrios generais se 

manifestaram contra a sua posse. No admitiam que o 

ex-ministro getulista fosse presidente. A UDN e Lacerda, 

claro, fizeram um coro contra a posse.

  O ento governador do Rio Grande do Sul, _Leonel _Brizola 

(que era do PTB, tal como Jango), levantou-se em defesa da 

Constituio do Brasil. E a Constituio era clara: quem 

deveria assumir era o vice. E o vice era Jango.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Leonel Brizola. O go-  o

  vernador gacho Leonel Brizo-    o

  la (PTB) ficou conhecido por     o

  pegar metade das terras de         o

  sua fazenda (herdada por sua       o

  esposa) e doar para a reforma      o

  agrria. Os conservadores o       o

  viam como um radical de            o

  esquerda.                          o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  Brizola tinha o apoio do comandante do Iii Exrcito. Mais 

ainda: milhes de brasileiros estavam do seu lado. Foi assim 

que Brizola mobilizou a populao, criando a _Rede _pela 

_Legalidade, uma grande campanha popular a favor da posse de 

Jango.

  A situao foi esquentando. Os nimos acirraram-se. E o 

impasse estava criado. No final, o Congresso Nacional deu um 

jeitinho e aprovou a _Emenda _Parlamentarista. O Brasil 

tornava-se um pas parlamentarista, que o chefe de governo  

o primeiro-ministro.

  Agora ficava fcil para os militares conservadores 

engolirem a posse de Jango. Afinal, ele estava com os poderes 

muito limitados. O mximo que podia fazer era propor ao 

Parlamento (deputados e senadores) o nome do 

primeiro-ministro. Mas, se o Parlamento votasse contra esse 

nome, o presidente teria de indicar outros indivduos at que 

um fosse admitido. Ou seja, Jango era presidente, mas quem 

governava mesmo era o primeiro-ministro.

  O primeiro a ser primeiro-ministro foi Tancredo Neves, do 

PSD mineiro. Ele procurou governar negociando com todas as 

foras polticas, inclusive a UDN.

  Em 1963, foi realizado um plebiscito (veja o texto 

{Plebiscito}, a seguir) em que a maioria esmagadora da 

populao votou a favor do retorno do presidencialismo. 

Finalmente, Joo Goulart teria poderes para governar. Mas 

quase no pde fazer nada: meses depois, seria derrubado por 

um golpe militar.



Plebiscito



  Plebiscito  uma consulta democrtica  populao. O povo 

volta a favor ou contra uma proposta. Em 1963, a maioria 

esmagadora da populao votou a favor da devoluo dos 

poderes presidenciais a Joo Goulart.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Anncio para convencer o    o

  eleito do plebiscito a votar   o

  a favor do retorno do          o

  presidencialismo.              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



Jango e as Reformas de Base



  Quando Jango assumiu, o pas estava numa encruzilhada: a 

economia crescia pouco e a inflao aumentava. Como resolver 

esses problemas? Na opinio de vrios analistas da poca, a 

nica sada seria destruir as estruturas arcaicas 

(antiquadas) e modernizar o capitalismo brasileiro. Mas que 

fosse uma modernizao capaz de estender os benefcios  

populao mais pobre. Em resumo, o Brasil precisava das 

_Reformas _de _Base.

  O pas inteiro falava das Reformas de Base. A principal 

delas era a _reforma _agrria. O governo tomaria terras 

improdutivas dos latifundirios, isto , os pedaos de terra 

que os fazendeiros nunca haviam aproveitado. Essas terras 

confiscadas seriam distribudas gratuitamente paras as 

famlias camponesas. Milhes de famlias teriam uma terra 

para plantar. No passariam fome, no engrossariam as favelas 

das grandes cidades. O mercado inteiro do pas cresceria, 

dinamizando a indstria.

  Outras reformas de Base incluam maiores impostos sobre os 

ricos, que proporcionariam dinheiro pra o governo fazer 

hospitais, estradas, escolas e casas populares. (Seria um 

modo de distribuir renda.) Tambm se falava em reforma na 

educao e em reforma no sistema bancrio. Um dos aspectos 

mais importantes era o _nacionalismo. Havia a proposta de 

obrigar as empresas multinacionais a investirem aqui mesmo a 

maior parte do lucro que obtinham no Brasil, em vez de 

simplesmente remeter para o exterior milhes de dlares 

ganhos  custa do trabalho dos brasileiros.



<234>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Antiga sede da UNE,  o

  na praia do Flamengo (Rio de   o

  Janeiro). Os estudantes uni-   o

  versitrios dos anos 60 que-    o

  riam participar ativamente       o

  das mudanas polticas e         o

  sociais.                         o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<P>

  Joo Goulart e a maior parte do PTB eram a favor das 

Reformas de Base. Apesar de ser um dos maiores fazendeiros do 

pas, Jango defendia a reforma agrria. Acreditava que ela 

era um timo recurso para se evitar uma revoluo socialista 

no pas.

  Uma parte importante do povo apoiou as Reformas de Base. A 

esquerda mobilizou-se para que elas fossem realizadas. O 

governo de Jango no perseguiu os comunistas. Lus Carlos 

Prestes, por exemplo, dava palestras e participava livremente 

de debates em sindicatos e associaes estudantis.

  No Nordeste, surgiram as _Ligas _Camponesas, lideradas por 

Francisco Julio, um advogado trabalhista com idias de 

esquerda. As Ligas Camponesas organizavam a luta dos 

trabalhadores rurais pelos direitos trabalhistas e pela 

reforma agrria. Em muitos lugares, os camponeses, pela 

primeira vez, realizaram greves e conseguiram a proeza (para 

eles) de receber o salrio mnimo. Em Pernambuco, o 

governador Miguel Arraes dava toda a fora  luta dos 

trabalhadores rurais. Por isso era rejeitado pelos 

latifundirios.

  Os sindicatos operrios tambm se organizavam. Para 

enfrentar a inflao, organizavam greves. Em vrias ocasies, 

com bom resultados. O salrio mnimo, que vinha caindo de 

valor havia vrios anos, conheceu uma pequena elevao.

  Os estudantes e os intelectuais participavam ativamente do 

processo de _conscientizao _popular. A UNE (Unio Nacional 

dos Estudantes) fazia passeatas a favor das Reformas de Base. 

Ela criou os CPC-s (Centros Populares de Cultura), que 

programavam espetculos de msica, teatro e palestras nas 

ruas para transmitir mensagens polticas para a populao: a 

arte e a cincia a servio da transformao social. Imagine 

s o entusiasmo daqueles estudantes, rapazes e moas, que 

acreditavam estar _conscientizando as pessoas, ajudando o 

pas a pensar sobre si mesmo e sobre os seus problemas!

  Mas nem todos estavam apreciando esse clima efervescente de 

mudanas. Interesses poderosos queriam acabar com as 

perspectivas de mudanas. E conseguiram.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Pintura de Portinari que     o

  mostra a famlia nordestina      o

  chorando a morte do filho.       o

  Para muitas pessoas, somente    o

  a reforma agrria poderia        o

  melhorar a vida dos campone-     o

  ses e reduzir a mortalidade      o

  infantil. O direito  proprie-  o

  dade ser mais importante?       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<235>

<P>

Os motivos para o golpe militar de 1964



  A mobilizao popular a favor das Reformas de Base 

amedrontou a classe dominante. Muita gente rica e poderosa 

ficou contra as Reformas de Base e contra Jango. Tinham medo 

de perder alguns privilgios. Temiam que as Reformas de Base 

fossem apenas o comeo de uma srie de transformaes 

radicais no pas.

  Os latifundirios, claro, no aceitavam a reforma agrria.

  Os grandes empresrios e banqueiros estavam assustados com 

as greves dos trabalhadores. Consideravam Jango um presidente 

fraco, incapaz de castigar o movimento sindical e de conter o 

crescimento dos comunistas.

  Grande parte da classe mdia estava apavorada com as greves 

e as manifestaes de trabalhadores. As greves eram 

consideradas a principal causa da inflao e da {desordem}.

  A UDN,  bvio, no perdoava o presidente. Lacerda, que era 

governador da Guanabara (mais tarde esse estado se fundiu com 

o Rio de Janeiro), discursava e escrevia diariamente contra 

Jango. Acusava-o de no controlar a corrupo nem a {baderna 

comunista}.

  Os EUA estavam assustados. Afinal de contas, a Revoluo 

Cubana liderada por Fidel Castro entusiasmava a juventude 

latino-americana. E se o Brasil acabasse estourando uma 

revoluo socialista? Os norte-americanos foram perdendo a 

pacincia com Jango. Irritaram-se com seu nacionalismo. 

Temiam o fato de ele no reprimir os comunistas. Nos 

relatrios dos agentes da CIA, ficava claro que a esperana 

dos EUA estava nos militares do Brasil.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Figura: moa falando: {Der-  o

  rubem logo esse Jango para eu   o

  poder comprar em paz}. A clas-  o

  se mdia apoiou o golpe de 64   o

  porque acreditava que a {or-     o

  dem} evitaria as greves e os     o

  protestos dos trabalhadores,     o

  que estariam provocando a        o

  inflao e prejudicando o        o

  mercado consumidor.              o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



  Os militares brasileiros tambm torciam o nariz para Joo 

Goulart. Tinham vrios motivos para isso. Basta lembrar que 

Getlio se suicidou (1954) depois de receber um recado dos 

militares para se afastar do governo. Imagine ento como 

esses mesmos militares se sentiam tendo um presidente 

getulista! A maioria dos oficiais das Foras Armadas vinha da 

classe mdia e tinha grande simpatia pela UDN. Talvez o 

motivo principal estivesse no fato de que grande parte dos 

comandantes militares brasileiros seguia a {Doutrina de 

Segurana Nacional} (veja a seguir). Achavam que Jango era 

incapaz de enfrentar o {perigo comunista}.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Milhares de pessoas    o

  da burguesia e da classe m-     o

  dia formaram a passeata Mar-    o

  cha da famlia com Deus pela    o

  Liberdade, exigindo que o       o

  presidente Goulart fosse des-   o

  titudo. Duas semanas depois,   o

  seu desejo seria atendido.       o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



A Doutrina de Segurana Nacional



  A Doutrina de Segurana Nacional (abreviadamente, DSN) foi 

criada por militares e intelectuais do governo 

norte-americano. No Brasil, ela chegou  cabea dos 

comandantes por intermdio dos cursos da {Escola Superior de 

Guerra} (ESG). A ESG tinha sido fundada logo aps a Segunda 

Guerra, com apoio de uma misso militar dos EUA.

  A DSN refletia os ideais da Guerra Fria. Sua idia bsica 

era de que os agentes comunistas da URSS se infiltravam nas 

instituies brasileiras (universidades, sindicatos, jornais, 

rgos culturais, editoras de livros, clubes, igrejas) para 

promover a _subverso. Ou seja, para a DSN, a luta pelas 

Reformas de Base, as greves operrias, as ligas camponesas, 

as aes da UNE, tudo isso estava sendo manipulado pelos 

comunistas fiis a Moscou.

  De acordo com a DSN, os militares brasileiros demonstrariam 

seu patriotismo impedindo a {subverso comunista}. Os 

comandantes militares acabaram concluindo que s havia um 

jeito: um golpe que implantasse uma ditadura militar. E a 

entrava outra idia da DSN: o governo militar organizaria o 

Brasil para que ele se tornasse uma grande potncia econmica 

e militar.



<236>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto Joo Goulart: ao lado   o

  da esposa, no famoso comcio      o

  da Central do Brasil, Joo     o

  Goulart anunciou as Reformas    o

  de Base. Dias depois, foi       o

  derrubado.                        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



O golpe militar de 1964



  Como voc viu, a oposio a Jango era cada vez maior. A 

cada dia que passava, ele perdia mais e mais o controle do 

pas. s escondidas, grandes empresrios e banqueiros 

reuniam-se com generais para conspirar contra o presidente da 

Repblica.

  A gota d'gua que faltava para transbordar o copo de 

pacincia dos militares pingou quando os marujos da marinha 

de guerra organizaram uma associao para defender seus 

direitos. A maioria dos comandantes militares legalistas, 

isto , que achavam que a Constituio deveria ser 

respeitada, mudou de opinio a partir da. Para eles, a 

quebra da hierarquia (os soldados desobedeceram os oficiais) 

era inadmissvel. Achavam que {infiltrao comunista} estava 

destruindo a disciplina e dissolvendo as Foras Armadas. Era 

preciso dar um basta.

  Jango resolveu dar a ltima cartada. Convocou o gigantesco 

{Comcio da Central do Brasil}, no centro do Rio de Janeiro. 

L, anunciou que enviaria ao Congresso Nacional um projeto de 

Reformas de Base. O principal era o incio da Reforma.

  No dia 31 de maro de 1964, o governador da Guanabara, 

Carlos Lacerda, rebelou-se contra o governo federal. Foi 

acompanhado pelo banqueiro e governador de Minas Gerais, 

Magalhes Pinto, e pelo empresrio e governador paulista, 

Ademar de Barros. Os generais ordenaram o deslocamento das 

tropas para ocupar os pontos estratgicos do pas. Jango 

quase no tinha militares do seu lado e no viu outra sada a 

no ser o exlio no estrangeiro. Foi acompanhado por Brizola 

e alguns milhares de brasileiros.

  No havia mais presidente constitucionalmente eleito. 

Agora, o governo estava nas mos do general Humberto Castello 

Branco. Comeava uma longa noite em nossa histria.



O apoio dos EUA ao golpe: _Operao _Brother _Sam



  O golpe que derrubou o presidente Joo Goulart, em 1964, 

foi obra dos prprios brasileiros: empresrios, generais, 

polticos de direita. Mas tambm no se pode ignorar que o 

governo norte-americano manifestou satisfao pelos 

acontecimentos.

<P>

  No momento da derrubada de Jango, uma fora-tarefa da 

marinha de guerra dos EUA se dirigia ao litoral do Brasil. 

Era a secretssima _Operao _Brother _Sam: caso o povo 

resistisse ao golpe, as tropas americanas desembarcariam no 

Brasil para apoiar os generais. Mas no foi necessrio. O 

golpe de 1964 foi bem-sucedido.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Charge: Barco de Guerra na   o

  Costa do Rio de Janeiro com    o

  os dizeres? {Ns, apoiando o     o

  golpe militar?! Que absurdo!     o

  Estamos s fazendo turismo!}     o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<237>

Amrica Latina dos ditadores



  O golpe de 1964 no Brasil foi acompanhado por outros 

movimentos militares na Amrica Latina nos anos 60 e 70. Que 

triste exemplo ns demos!

<P>

  Na Argentina, o golpe militar foi dado em 1966. Dez anos 

depois, os militares deram outro golpe. No Chile, o general 

Pinochet derrubou o presidente socialista Salvador Allende em 

1973. No mesmo ano, os militares uruguaios implantaram uma 

ditadura. Os motivos bsicos eram os mesmos: impedir a 

mobilizao popular e controlar a ameaa socialista.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    Foto: Geisel e Pinochet.     o

  Os ditadores da Amrica Lati-  o

  na diziam estar {salvando a       o

  democracia}.                      o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



O Cinema Novo



  No final dos anos 50 e comeo dos 60, vrios diretores de 

cinema brasileiros criaram filmes que ganharam prmios no 

exterior. Destacaram-se nomes como o de Gluber Rocha ({Deus 

e o diabo na terra do sol}, 1964), Nlson Pereira dos Santos, 

Leon Hirszman, Rui Guerra e Joaquim Pedro de Andrade. O modo 

de eles fazerem filmes foi chamado de _Cinema _Novo 

_Brasileiro. Propunham-se fazer filmes {de arte}, levando o 

pblico a refletir sobre sua condio social. Em vez do 

estilo comercial de Hollywood, obras que deixavam claro o 

estilo artstico do diretor, que buscavam uma linguagem 

prpria para o cinema brasileiro. O lema era: {Uma idia na 

cabea, uma cmera na mo} (Gluber Rocha). Os temas 

preferidos: o homem simples do povo, o sertanejo, a 

explorao do latifundirio, a necessidade de afirmar a 

cultura popular e nacional contra a {penetrao cultural do 

imperialismo norte-americano}.



<P>

<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Cena de um filme ser-  o

  tanejo brasileiro. Nos anos     o

  50, o cinema brasileiro produ-  o

  ziu as chamadas {chanchadas}     o

  da Atlntida. Eram comdias    o

  divertidas e at maliciosas.     o

  Atraram um grande pblico.     o

  J os filmes do Cinema Novo   o

  eram muito intelectualizados     o

  e considerados {montonos} pe-   o

  la maioria das pessoas. A con-  o

  tradio: o cinema contesta-     o

  dor s agradava a uns poucos.    o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

<F+>



<238>

Texto Complementar



  Lencio Basbaum foi um intelectual brasileiro de rara 

capacidade para analisar a realidade de nosso pas com ironia 

e profundidade. Ele militou na esquerda e participou 

ativamente de importantes acontecimentos de nossa cidade. No 

texto a seguir, Basbaum nos fala sobre a {guerra 

psicolgica}, ou seja, a macia campanha ideolgica contra o 

governo Joo Goulart, recheada de exageros e de mentiras, com 

o objetivo de convencer as pessoas de que um golpe militar 

seria {a melhor coisa a ser feita no Brasil}:



  {Uma das causas mais importantes para a queda _to _rpida 

do presidente Joo Goulart foi o _terror _psicolgico, pouco 

a pouco habilmente instilado na conscincia social do pas. 

Esse terror psicolgico se baseava sobretudo no 

_anticomunismo (...).

  Os jornais se encarregavam de espalhar boatos de toda a 

ordem (...). Nos muros, apareciam os dizeres mais 

estapafrdios: _Morte _aos _comunistas, _Fora _para _Prestes 

(...). A sede da UNE chegou a ser incendiada a atacada com 

bombas (...).

<P>

  E era o Governador Carlos Lacerda quem mais se esmerava em 

aumentar esse terror (...) denunciando planos mirabolante e 

aterradores de atentados e assassnio em massa, programados, 

segundo dizia, pelos comunistas. (...)

  Na famosa Marcha da Famlia com Deus pela liberdade, 

organizada por alguns deputados paulistas e apoiada por 

alguns grupos religiosos catlicos, sobretudo ingnuas 

freiras, em que milhares e milhares de mulheres se 

concentraram na Praa da S, de tero na mo, rezando como se 

houvesse chegado a _hora _final, o fim do mundo.

  Por todo o pas se espalhava a angstia que consistia no 

pavor de uma possvel guerra civil em que os brasileiros e 

catlicos teriam de se defender contra a sublevao comunista 

e a invaso russa, como se os encouraados soviticos j 

estivessem no porto ou desembarcando em Santos. (...)

<P>

  Essa angstia atingiu tambm os indiferentes, os sem 

partido, os neutros, os que no sabiam de que lado 

inclinar-se, e agora se deixavam tomar pelo terror, certos de 

que essa angstia somente terminaria com a queda de Jango. 

Era preciso acabar com isso!}



  (Basbaum, Lencio. {Histria sincera da Repblica}. De 1961 

a 1967. 2 ed. So Paulo: Alfa-mega, 1977. pp. 113-116.)



  A Partir do que  apresentado pelo autor do texto acima, 

procure responder:



  1. O presidente Joo Goulart era de famlia de fazendeiros 

muito ricos. Ele nada tinha de comunista. Acreditava que as 

Reformas de Base eram a melhor maneira de preservar e 

modernizar o sistema capitalista no Brasil. Apesar disso, o 

que seus adversrios diziam que aconteceria com o Brasil caso 

Joo Goulart continuasse governando?



  2. em que era baseada a propaganda ideolgica contra Jango?



  3. como o governador da Guanabara (pela UDN), Carlos 

Lacerda, procurava assustar a populao?



  4. Quem organizou a {Marcha com Deus, pela famlia e pela 

Liberdade}, com dezenas de milhares de pessoas desfilando no 

centro de So Paulo? O que  que tanto apavora as pessoas e 

fez com que elas participassem dessa marcha?



  5. Como os sentimentos religiosos do povo brasileiro foram 

utilizados pela guerra ideolgica contra Joo Goulart?



<239>

<P>

Exerccios de Reviso



  1. {Industrializar aceleradamente o pas; do exterior para 

o nosso territrio as bases do desenvolvimento econmico; 

fazer da indstria manufatureira o centro dinmico das 

atividades econmicas nacionais -- isto resumia meu 

propsito. (...).} (Juscelino Kubitschek.) O presidente 

Juscelino Kubitschek props um Plano de Metas para executar 

os objetivos do nacional-desenvolvimentismo. Mostre quais 

eram seus principais objetivos.



  2. {Tnhamos que (...) superar nossa dependncia do caf. A 

indstria automobilstica superou tudo.} (Juscelino 

Kubitschek.) Indique qual era a posio de Juscelino em 

relao  participao do capital estrangeiro na economia do 

Brasil e compare-a com a posio de Vargas.



<P>

  3. Releia o quadro da pgina 186 (livro em tinta), que 

caracteriza um pas do Terceiro Mundo ({subdesenvolvido}). A 

partir dele, analise o governo JK e responda: todos esses 

problemas foram superados? O grande problema do Brasil era 

apenas a falta de industrializao?



  4. {O caminho da UDN para o Palcio do Planalto passa pela 

eleio do sr. Jnio Quadros.} (Carlos Lacerda.) Caracterize 

a grande aliana poltica que apoiou a eleio de Jnio 

Quadros.



  5. {Eu anunciei uma poltica de independncia, com pleno 

exerccio da soberania nacional. (...) O acordo militar 

Brasil-Estados Unidos no foi firmado por mim. Encontra-se em 

vigor. Enquanto estiver em vigor, (...) eu o manterei. (...)} 

(Jnio Quadros, em entrevista coletiva em 21/5/1961.) Mostre 

o que havia de novo na poltica externa do governo de Jnio 

Quadros e explique o motivo para ela ter irritado os EUA.



  6. {Fui vencido pela reao e assim deixo o governo. Nestes 

sete meses cumpri meu dever. (...) Mas baldaram-se (foram 

inteis) meus esforos para conduzir esta Nao pelo caminho 

de sua verdadeira libertao poltica e econmica (...). 

Foras terrveis levantam-se contra mim.} (Jnio Quadros, 

25/8/1961.) Como acabou o governo Jnio Quadros?



  7. {(...) as Foras Armadas do Brasil, atravs da palavra 

autorizada de seus ministros, manifestaram (...) a absoluta 

inconvenincia, na atual situao, do regresso ao Pas do 

vice-presidente, sr. Joo Goulart. (...).} (Declarao dos 

ministros da Guerra, da Marinha e da Aeronutica, 31/8/1961.) 

Explique a crise poltica aps a sada do presidente Jnio 

Quadros.



  8. {Estaramos, assim, brasileiros, ameaando o regime se 

nos mostrssemos surdos aos reclamos desta Nao, desses 

reclamos que (...) levantam o seu grande clamor pelas 

Reformas de Base e de estrutura, sobretudo pela reforma 

agrria, que ser o complemento da abolio do cativeiro para 

dezenas de milhes de brasileiros, que vegetam no interior, 

em revoltantes condies de misria. Ameaa  democracia, 

enfim, no  vir confraternizar com o povo da rua.} 

(Presidente Joo Goulart, comcio da Central do Brasil, 

13/3/1964.) Diga o que eram as principais Reformas de Base e 

quais os grupos que se apoiavam.



  9. {O que se quer fazer aqui -- esta  a triste ironia do 

momento da vida brasileira -- (...)  a desordem pura e 

simples, para depois fazer o regime comunista. (...) Quer-se 

dividir as terras para neg-las a todos, desorganizando a 

produo agrcola, provocando a fome na cidade. (...)} 

(Carlos Lacerda, Conveno da UDN, 9/4/1963.) Indique quais 

eram os grupos que se opunham s Reformas de Base e ao 

presidente Joo Goulart.



<240>

  10. {(...) devemos proclamar esta verdade para que no nos 

iludamos, a infiltrao bolchevista em todos os setores da 

vida brasileira. (...) ela controla, por meios indiretos, 

grande parte da atividade nacional. (...) Urge por isso que, 

desassombradamente, contra eles lutemos por todas as formas e 

de todas as maneiras.} (Declarao da Escola Superior de 

Guerra, 1952.) Aponte quais eram as principais idias 

defendidas pela Doutrina de Segurana Nacional e relacione-a 

ao golpe militar de 31 de maro de 1964.



<P>

  11. Compare a mudana poltica ocorrida no Brasil em 1964 

com o que ocorreu em vrios pases da Amrica Latina nos anos 

60 e 70.



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?

    A propaganda dos anos 50      o

  exaltava o consumo de eletro-     o

  domsticos e de roupas tal        o

  como apareciam nos filmes         o

  americanos. As gravuras fei-     o

  tas pelos CPC-s da UNE, nos   o

  anos 60, criticavam os {valo-    o

  res comunistas burgueses e im-    o

  perialistas} e valorizavam        o

  uma arte {popular e nacional}.    o

   verdade que {fora da pol-     o

  tica no h arte popular}?        o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieiei

<F+>



<241>

<P>

Reflexes Crticas



<F->

*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*?*

    Foto: Passeata dos sem-      o

  terra na dcada de 90. No fi-  o

  nal dos anos 90, os campone-    o

  ses sem-terra organizaram-se     o

  para lutar pela reforma agr-    o

  ria. Trinta anos depois de      o

  Jango, o problema ainda no     o

  estava resolvido. Hoje em dia   o

  as pessoas ainda acham que       o

  {reforma agrria  coisa         o

  de comunista}?                   o

eieieieieieieieieieieieieieieieieieie

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  1. Para que todos os brasileiros possam freqentar a 

escola, alimentar-se convenientemente e ter bons hospitais, 

 preciso que o Brasil se torne um pas de Primeiro Mundo? Ou 

ser que o pas, hoje, j tem um nvel de desenvolvimento 

econmico suficiente para resolver esses problemas?



  2. O capital estrangeiro deve ter toda a liberdade para 

investir no Brasil ou deve ser severamente limitado?



  3. Quais eram as vantagens e as desvantagens de uma reforma 

agrria nos dias de hoje?



  4. Imagine uma regio com muitas fazendas modernas, 

altamente produtivas, com todas as terras sendo utilizadas. 

Ao mesmo tempo, na mesma regio, milhares de famlias pobres 

desempregadas e sem terras. Neste caso, ser que a reforma 

agrria no iria destruir o desenvolvimento econmico da 

regio?



  5. Existe alguma situao poltica em que a melhor sada 

seja um golpe militar?



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